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ANOTAÇÕES DA PALESTRA – COMO A APRAXIA AFETA O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO – FGA MONIQUE FERRO POR FGA ANGELA SENISE

ANOTAÇÕES REALIZADAS PELA FGA. ANGELA TEIXEIRA SENISE DA PALESTRA DA FGA. E PSICOPEDAGOGA MONIQUE FERRO, NA TERCEIRA CONFERÊNCIA NACIONAL DE APRAXIA DE FALA NA INFÂNCIA, 2017.

 

 

Este texto foi elaborado a partir da transcrição da Palestra da Fonoaudióloga e Psicopedagoga Monique Ferro, ministrada na Terceira Conferência de Apraxia de Fala na Infância. Embora tenha procurado ser fiel ao texto transcrito, pode haver nestas anotações um viés de interpretação pessoal. As anotações com fonte em vermelho, são comentários meus, Angela Teixeira Senise, com objetivo de complementar as informações.

 

Um documento da American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) define a Leitura como o processo pelo qual um indivíduo constrói significados, transformando símbolos impressos na forma de letras em palavras reconhecíveis. Os componentes da leitura incluem decodificação da leitura, reconhecimento de palavra, fluidez de leitura e compreensão de leitura.

 

É importante que o processo de alfabetização não se limite a aquisição mecânica de aprender o alfabeto e dominar sua codificação e decodificação.  É necessário que sejam desenvolvidas as habilidades da leitura e da escrita de interpretar, compreender, criticar, de produzir conhecimento e de saber registrar sentimentos.

 

Os métodos de alfabetização podem ser divididos em dois grupos:

  • Os analíticos: que partem das unidades maiores palavras, frases ou textos. Não consideram, em um primeiro momento, as unidades menores, como as sílabas, letras e fonemas. Podem ser encaixados nesta categoria os métodos Global, Palavração e Setenciação.
  • Os sintéticos: partem das unidades menores (letras e sílabas) para chegar na formação das palavras e dos textos. Métodos: fônico, Alfabético e silábico.

 

Quais as vantagens do método fônico?

 

  • Diversas pesquisas indicam que o método fônico favorece o desenvolvimento da fala e da escrita.
  • A língua portuguesa é regida por um sistema alfabético de escrita. Isto é, temos ao menos uma letra para representar cada fonema. Os fonemas são as unidades mínimas que compõe os sons da fala. Podemos analisar/ dividir uma palavra em sílaba e analisar/dividir as sílabas em unidades menores, que são os fonemas. Quando falamos a sílaba “la”, podemos analisar os sons /l/ e o /a/. O japonês tem uma escrita silábica, nesta a unidade do símbolo gráfico representa uma sílaba e não um fonema. E existes os sistemas Logográficos de escrita, como o chinês e o sistema Kanji (Japonês). Nestes , cada ideograma representa, um conceito, uma idéia, ou uma palavra. Ou seja, cada símbolo pode chegar a representar mais do que uma palavra.
  • No português, a relação entre o grafema e o fonema é prevalentemente “unívoca”, um grafema sempre representará um único som e vice versa. Temos como exemplo de relação unívoca entre grafema e fonema no português os grafemas (p, b, t, d, m, n, l, f, v, a, i, u). Em menor número na nossa língua, temos alguns grafemas/fonemas com relação “não unívoca”. São exemplos destes os grafemas “s”, “X”, e o “r” . Nestes mesma letra pode ser lida com diferentes sons, a depender da palavra.
  • Como os sistemas de escrita das línguas são diferentes, precisamos buscar nas características do sistema o que ajudará no seu aprendizado. As línguas com um sistema Logográfico de escrita serão favorecidas por um método analítico, ou seja um método global, pois como vimos o símbolo representará toda uma ideia. A análise em sílabas e letras e fonemas em nada favorecerá este processo.
  • O método fônico favorecerá o entendimento do processo de alfabetização quando existe um sistema alfabético de escrita, principalmente com prevalência de uma relação unívoca entre fonema/grafema. Este é o caso da língua Portuguesa.
  • O método fônico também favorece o as habilidades de Consciência fonológica. Que é a capacidade de segmentar as palavras em sílabas.
  • Para ler temos que “analisar” o texto e saber atribuir a cada letra o som correspondente a ela (decodificação).
  • Para escrever sintetizamos a palavra atribuindo a cada som da fala o respectivo grafema.
  • Para o domínio pleno do processo de alfabetização é necessário um ensino direcionado para que a criança aprenda a analisar o a sílaba em sons. Passar da sílaba para os fonemas que a compõe.

 

 

O que a criança precisa aprender para se alfabetizar dentro de um sistema de escrita. O que uma criança precisará para se alfabetizar no Japonês será diferente do Português.

 

Pensando no sistema Alfabético, que é o da língua Portuguesa, existem 4 braços que precisam ser garantidos no aprendizado:

 

  1. Existe pelo menos uma letra para a representação de cada fonema (som). No mínimo uma, pois temos os dígrafos (ch; lh; rr).
  2. A criança tem que desenvolver a capacidade de segmentar a palavra em sílabas e as sílabas em fonema.
  3. Para ler a criança tem que atribuir às letras seus respectivos sons. Ela precisa olhar a letra e saber qual som vai falar.
  4. Para escrever ela precisa analisar a palavra identificar cada letra com seu som correspondente e colocar na sequencia na hora de codificar.

 

Na prática clínica percebemos que a criança com Apraxia de Fala na Infância (AFI), tem muito mais facilidade para aprender a ler do que para escrever. Pois, a escrita envolve o processo de análise, identificação, organização e de sequencialização. Além da programação motora da escrita. Todas estas habilidades são um grande desafio para as crianças com AFI e são habilidades necessárias para escrever.

 

Pesquisa realizada em Stanford (2015) indicou:

  • Que as crianças alfabetizadas pelo método global apresentavam uma maior ativação do hemisfério direito do cérebro.
  • As crianças alfabetizadas com o método fônico apresentavam maior atividade do hemisfério esquerdo e das áreas visuais.
  • Ao se expor a criança a uma palavra nova, que ela nunca havia visto foi observado:
    • Crianças alfabetizadas pelo método global: tiveram que utilizar muita memória; a fluidez de leitura foi péssima e a compreensão muito ruim.
    • Crianças alfabetizadas pelo método fônico: apresentaram uma melhor fluidez de leitura e uma melhor identificação e compreensão de leitura.

 

Pensando em uma alfabetização eficiente, é necessário chegar ao nível do fonema para que o aluno domine o sistema alfabético de escrita. Não tem como imaginar um leitor/escritor proficiente em um sistema Alfabético de escrita, que não tenha um pleno domínio do nível do fonema. Mesmo que seja alfabetizado por um método Analítico, precisa dominar a análise e sintetize da escrita e leitura à nível fonêmico. Para a criança compreender a transição, a relação entre a sílaba, as letras e os fonemas é necessário um ensino formal, sistemático e direto. Sem isso, a criança não chega nesta hipótese sozinha. Não tem como pensar que a criança sozinha chegará a hipótese de entender os fonemas, porque são estruturas  abstratas, que não aparecem separadamente na nossa fala cotidiana. O máximo que a criança consegue perceber, por conta própria, são as relações silábicas na palavra, mas não do som, dos fonemas.

 

A partir no momento que a criança aprende o som, do som ela conseguir formar sílaba e da sílaba ela compor a palavra, fica muito fácil.

 

Estudos indicam que as crianças com alteração na linguagem oral tem uma chance muito alta de desenvolver desordens na linguagem escrita.

 

Um estudo realizado com crianças com fenda palatina e com crianças com AFI demonstrou que:

  • 16% de crianças com fendas palatinas apresentaram alterações de leitura e escrita.
  • 69% das crianças com AFI apresentaram alterações de leitura e escrita.

Estes dois grupos apresentam alterações de fala. Mas na criança com fenda palatina, a alteração de fala é devido a uma alteração estrutural, mecânica enquanto na criança com AFI existe uma questão cerebral, envolvendo regiões corticais e subcorticais.

 

O Déficit no Processamento Fonológico é o que causa as alterações no aprendizado da Leitura e da Escrita.

O que causa o Déficit no Processamento Fonológico é a Alteração de Linguagem.

Existem muitas crianças que não tem alteração de linguagem, mas tem alteração de leitura e escrita e quando estas crianças são submetidas a testagens se percebe que elas apresentam um baixo rendimento nas tarefas de consciência fonológica

 

POR ISSO A COSCIÊNCIA FONOLÓGICA É UM PRÉ-REQUISITO PARA A AQUISIÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA

 

As crianças com alterações de linguagem oral desenvolvem dificuldade no desenvolvimento das habilidades de consciência fonológica e consequentemente na leitura e na escrita.

 

Um estudo apontou que 65% das crianças de um grupo entre 4 e 6 anos, com AFI não conseguem fazer tarefas de Consciência Fonológica.

 

É imprescindível que a Consciência Fonológica seja trabalhada desde o princípio com a criança com AFI.

 

Consciência fonológica:

 

  • Não é somente saber realizar a relação entre cada fonema e sua letra e dominar a relação grafema/fonema da alfabetização.
  • É ensinar a criança a pensar o som, segmentar som, é entender a palavra, entender sílaba.

São habilidades que fazem parte da consciência fonológica e que precisam ser trabalhados desde muito cedo com todas as crianças, principalmente com AFI:

  • Consciência de palavra: saber que a palavra formiga é maior que a palavra trem. Mesmo sendo o animal formiga muito menor que o trem. A Palavra é maior, tem mais sons, mais letras, demora mais para eu falar formiga do que trem, o tamanho da palavra é maior.
  • Rima: treino de prosódia, de entonação, atenção em sílaba tônica.  Vários elementos que são favoráveis a pré-alfabetização.
  • Aliteração (palavras que se iniciam com o mesmo som): a criança perceber que boca, começa com BO e boneca também. Então o começo das duas palavras é semelhante.

Ex. : “ Olha o meu rosto. Qual parte do meu rosto começa com o som “BO”. Isso “boca” !; este é um exemplo de uma atividade simples, que pode ser feita com crianças muito pequenas e que se está desenvolvendo esta habilidade.

 

É fundamental treinar a consciência de sílaba, de palavras precocemente, muito antes de se pensar em alfabetização, a partir dos 2 anos, 2 anos e meio. Posteriormente, no processo de alfabetização se entrará com a relação do som com a letra em si.

 

Na consciência fonológica aprendemos a manipular; segmentar; planejar, organizar e sequenciar sons.

Na prática vemos que o trabalho de consciência fonológica melhora a produção oral das crianças que tem dificuldade para encadear frases; ou de encadear palavras trissílabas, e até mesmo daquelas crianças que não emitem qualquer som. Ou seja, é observado um desenvolvimento grande da linguagem oral através do trabalho da consciência fonológica.

 

No desenvolvimento da alfabetização das crianças com AFI observa-se as seguintes alterações:

  • Dificuldade na segmentação de palavras para sílabas e destas para fonemas;
  • Trocas ortográficas diferentes das normalmente observadas;
  • Dificuldade nas rimas.
  • Dificuldade na mistura (co-articulação ) dos sons; A criança consegue escrever PA e  TO mas não PATO.

 

 

A criança com AFI precisa de um processo de Alfabetização embasado nos princípios da aprendizagem motora:

  • Pistas multissensoriais: visuais, auditivas, cinestésicas, todas as pistas que favoreçam a criança. É preciso utilizar as pistas que forem necessárias e na medida que vá ocorrendo o desenvolvimento do processo ir tirando as pistas.
  • Feedback: conscientizar a criança do que ela está fazendo. Se ela acertou se errou, o que ela está produzindo.
  • A progressão da complexidade precisa ser sistemática. Não adianta começar a ensinar uma criança apráxica a ler por uma palavra. Precisa iniciar pela identificação de vogal, depois, de consoante, depois junta a primeira sílaba, depois vai para palavras dissílabas, trissílabas, polissílabas, frases e texto.
  • Os exercícios precisam ser frequentes, individuais e repetitivos. A repetição é muito importante também quando estamos treinando a escrita.
  • A prosódia, que é muito importante na linguagem oral, também é na escrita. Do mesmo modo que na fala, devemos evitar falar dividindo as sílabas na leitura e na escrita(falar de forma silabada). Devemos apresentar a leitura sempre de forma encadeada. Ex.: Paaatoo e não Pa To, separando as sílabas. Isso facilitará que a criança consiga fazer a leitura e o entendimento da palavra toda. Existe um risco grande da criança não conseguir encadear a palavra toda, não desenvolver fluidez de leitura e compreensão do texto, após uma leitura silabada.

 

A pergunta que deve ser feita diante de uma criança com Apraxia é: “ A criança está pronta para ler?” Se a criança não estiver pronta para ler, devem ser trabalhadas todas as habilidades fonológicas faladas anteriormente, que são atividades de consciência fonológicas de pré-alfabetização. São estas que irão capacitar a criança para estar pronta para a Alfabetização.

 

Consciência Fonológica é uma ferramenta.

 

As pistas devem ser adequadas a necessidade sensoriais e de desenvolvimento de cada  criança. Os recursos pedagógicos também devem ser adaptados à necessidade da criança, sempre trazendo para o concreto quando preciso. Utilizar blocos, fichas, velcros, quadros, bolinhas. Tem que ser ensinado da forma que a criança aprenda.

 

O que precisa ser feito para ajudar a criança:

 

– Uma avaliação completa de linguagem.

– Uma avaliação das habilidades auditivas e visuais e consciência fonológica.

 

Duas dicas, que são as mais importantes:

  • Trabalhar consciência fonológica desde cedo. Isto precisa ser pensado e desenvolvido como pré-requisito da alfabetização e como favorecedor do desenvolvimento fonológico, que irá ajudar o desenvolvimento da linguagem oral. Na escola o professor precisa entender e trabalhar este processo com todos os alunos desde o maternal. Assim favorecerá a todos, os que tem dificuldade e os que não tem.
  • Os educadores saberem ensinar a criança a pensar o som vai garantir a alfabetização. O paciente tem que ser olhado como único. Como ele vai aprender a se concentrar, perceber e saber entender o som. É preciso pensar, planejar as estratégias para o paciente.

 

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