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Autismo e Apraxia de Fala associado

Este post, escrevo especialmente para os pais de crianças com Autismo e também para profissionais que atuam na área. Crianças com Autismo também podem ter o diagnóstico de Apraxia de Fala associado. Isso não significa que todas as crianças terão, mas é muito importante ficar atento. Infelizmente, aqui no Brasil, crianças com Autismo que não falam (não-verbais) são sempre justificados pelo quadro. Mas podemos sim, ter crianças que não falam porque além do Autismo também podem ter Apraxia de Fala. 
Atenção às crianças, que apresentam ganhos nos aspectos trabalhados, como por exemplo: melhora no contato visual, na compreensão verbal, nas habilidades cognitivas, que aprendem com facilidade outros meios de comunicação, como o Pecs, mas que a produção verbal, a fala, não acompanha o mesmo ritmo de evolução. Isso pode indicar uma falha no planejamento motor da fala.

A seguir, compartilho com vocês o texto escrito pela Sharon GRETZ, Diretora Executiva da Associação Norte-Americana de Apraxia de Fala na Infância (CASANA).

Produção de fala em crianças com Autismo

É sempre útil pais e profissionais se questionarem: “Algo a mais poderia explicar a ausência de fala ou habilidades de comunicação nos quadros de Autismo?” De acordo com o Dr. Barry Prizant, há evidências crescentes de que a ausência de fala ou gestos, em um subgrupo de crianças com Autismo, pode estar relacionada a outros fatores, além do déficit sócio-cognitivo. Uma área que deve ser investigada inclui o aspecto do planejamento motor da fala. E isso inclui as apraxias orais e verbais. 
Presume-se muitas vezes, que o motivo de uma criança com Autismo não falar, está relacionado com a habilidade cognitiva de linguagem ou habilidades receptivas. No entanto, Prizant argumenta que o déficit no planejamento motor da fala, também pode estar presente nas crianças com Autismo e isso poderá inibir o desenvolvimento da fala.

Por exemplo: algumas crianças com Autismo são capazes de adquirir a capacidade de comunicar de forma significativa por meio de sistemas alternativos de comunicação ou com linguagem gestual, apesar da sua produção de fala ser severamente limitada. Este fato pode demonstrar habilidades cognitivas e linguísticas adequadas.

Algumas crianças demonstram os sinais clássicos de problemas motores orais, tais como dificuldade em coordenar o movimento dos articuladores (lábios, língua, mandíbula, etc.), dificuldade de alimentação, dificuldade no controle da saliva (presença de baba). 
Alguns sinais são consistentes com um diagnóstico Apraxia de Fala. Estes sinais podem incluir: predomínio de vocalizações, pobre repertório de consoantes (consoantes requerem maior habilidade de planejamento motor); algumas sílabas ou palavras mais curtas são produzidas claramente e a ininteligibilidade da fala aumenta para palavras mais extensas (quanto mais sílabas, menos clara será a fala ou então manterá apenas as vogais das palavras); é possível observar diferenças na fala automática e na voluntária (por exemplo, ecolalias podem ser mais claramente articuladas do que as tentativas de fala espontânea). (Prizant, 1996). 
Assim como em outras crianças que também apresentam uma fala limitada, ausente ou ininteligível, a avaliação das habilidades de comunicação das crianças com Autismo também deve incluir a avaliação do sistema motor da fala e das praxias orais. Dr. Michael Crary delineia uma série de áreas para observação e avaliação clínica, incluindo:
– funções motorais não-verbais: postura global, marcha, coordenação dos movimentos finos, coordenação motora oral, mobilidade oral, postura de boca, salivação, deglutição, mastigação, estruturas orais, simetria, movimentos automáticos versus voluntários. 
– avaliação dos aspectos motores da fala: esforço e tensão durante as tentativas de fala, ensaios visíveis da boca, desvios na prosódia (ritmo, volume, entonação, etc.), fluência da fala, hiper/hiponalisalidade, velocidade e pobre coordenação nos movimentos de diadococinesia, por exemplo: repetir: PATAKA E BADAGA (não consegue manter a sequência!)
– articulação e aspectos fonológicos: produção verbal, repertório de fonemas, relutância em falar, a capacidade interativa, inteligibilidade e tipo de erros, os efeitos do aumento da complexidade silábica; amostras de fala encadeada; os resultados dos testes padronizados.
– desempenho linguístico: recepção e expressão, tipo de sentenças utilizadas, habilidades semânticas e sintáticas e habilidades de conversação.
Outros: capacidade de sustentar e desviar a atenção, distração.

Geralmente clínicos relatam que pode ser difícil avaliar de forma específica o controle motor oral e de produção de fala em crianças com Autismo (dificuldade para analisar o desempenho nas tarefas formais de avaliação). Além disso, algumas crianças também podem apresentar acentuada hipersensibilidade oral. A falta de consciência proprioceptiva e outras questões sensoriais podem também impactar o desenvolvimento da fala. A restrição alimentar que também pode estar presente no Autismo também pode afetar a mastigação, os padrões sensitivos e proprioceptivos, e consequentemente a fala. 
Em resumo, todos os aspectos da comunicação, da fala e da linguagem devem sempre ser avaliadas nas crianças com Autismo, assim como com outras crianças que apresentam outros diagnósticos de fala e de linguagem.

Referências:
Crary, Michael A. “Developmental motor speech disorders”. San Diego, CA: Singular Publishing Group, 1993.
Prizant, Barry M. “Brief report: communication, language, social and emotional development.” Journal of Autism and Developmental Disorders, Vol. 26, No. 2, 1996.

Vail, Tracy. Personal Correspondence. October 2000.
Tradução: Dra. Elisabete Giusti, Fonoaudióloga.

http://www.atrasonafala.com.br